quinta-feira, junho 02, 2011

Carioquês, para principiantes

Sempre me avisaram: 

- Van, cuidado que carioca é malandro.

Eu sempre levei os meus cuidados a sério. Malandragem bilateral comigo não funciona. Mas malandragem carioca tem um q.b. hiperbolizado no humor. Os cariocas são engraçados. A minha amiga Ana Paula sempre sabia dar a volta por cima, mesmo quando foi sequestrada e se tornou quase amiga do cara. Na hora de a matar, ele vacilou, não quis e a namorada ficou furiosa. A Aninha quase provocou uma separação conjugal. Sobretudo, depois, que estavam a tentar ultrapassá-lo na estrada e a Aninha começou a gritar, sequestrada: 

- cara, vai, acelera que esse aí não sabe dirigir. 

É. No dia seguinte, depois de os sequestradores terem roubado todo o dinheiro dela, levado o carro, ameaçado o dia inteiro que a iam matar, de a largarem para pegar o bonde em São Gonçalo, a única coisa que ela respondeu a quem lhe perguntou se ela estava bem foi: 

- Gente, vocês não imaginam. Faz tempo que eu não ia lá. São Gonçalo está tão bonitinho! Moderno! 

É, a Aninha é assim. Dá sempre a volta por cima, espontaneamente. Mas, com o tempo, apercebi-me que isto tem muito de carioca. Carioca é malandro, mas é muito engraçado. Carioca é um stand-up-comedy ambulante, parado no boteco, na esquina, na praia, no calçadão, no morro, no bonde, ou na van. (É, não eu, mas a carrinha em "ingrês" mesmo, assim, oh: van). 

É isso. Comprovei a tese de todas as vezes que lá fui, mas tive a certeza que a vida dos cariocas é uma comédia (e não por folhear mais de perto as deliciosas crónicas do Luís Fernando Veríssimo) em Belém, em 2009. (É:  a Amazónia está quase a fazer 2 anos em Agosto).

Engenheiro Florestal. Maneiro! Cara engraçado contando história: tipo carioquês! 

Dia do amigo secreto: trocamos prendas com um grupo de amigos. Quase-Natal. Ele não conhecia a pessoa a quem tinha de dar prenda: comprou um pólo básico-preto. Mote para a conversa: Shopping. Fazia tempo que ele não ia lá. A última vez fora no Rio, com a mulher.

Ela: Oi, amor, a gente se encontra no final do dia no shopping, tá?
Ele: Tá bom meu amor. Comemos alguma coisa por lá, então.
Ela: Aquele do costume tá? O shopping do Bota-Fogo.
Ele: Tá bom!

(Ele pega no carro. Ruma ao shopping. Senta-se no banco e espera. E espera. E espera. E espera...)

Ela: Oi amor, peguei muito trânsito, mas estou chegando. Onde você está?
Ele: Na entrada, amor. Logo no banco da entrada, do costume.
Ela: tá bom. Em cinco minutos te encontro.

(Ele continua à espera. Espera. Espera. Ela liga)...

Ela: Amor, onde você está agora?
Ele: Ué? Na entrada!
Ela: É mesmo? Não te encontrei.Pera, vou voltar para trás!
Ele: ok (e continua esperando)

Ela liga, de novo.
- Amor, cadê você?
- Então, tô na entrada no banco da frente. Tem uma loja da C&A aqui do lado. Tô vendo biquinis em promoção.
- C&A? Mas o shopping do Bota Fogo não tem C&A. Isso é no shopping da Gávea!
(Ele engole em seco. Tem consciência que se enganou no shopping, agora, mas continua segurando)
Ele: - Não pode ser. Você tem certeza meu amor?
Ela: CARDOSO! ABSOLUTA. Você está no shopping errado. Nunca ouve o que eu digo.
Ele: Ai, amor, tô indo!

(Ela espera, espera, continua esperando, enquanto ele tenta que o carro dê uma de jactinho privado, voando sobre os céus cariocas...Chegou!Encontrou-a duas horas depois do combinado!)

Ele: - Não fala nada. Toma o cartão de crédito!


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